Evento reuniu mais de 60 autores e projeta itinerância de exposições em Belo Horizonte e Araxá.
O que começou como um desejo de reunir apaixonados pela imagem em uma das cidades mais charmosas de Minas Gerais completou, em 2026, sua 15ª edição como um dos pilares da fotografia brasileira. O Festival de Fotografia de Tiradentes – Foto em Pauta encerrou sua programação comemorativa consolidando-se como um encontro que vai muito além das “fotos bonitas”, transformando a paisagem histórica em um laboratório de reflexão sobre o mundo contemporâneo.
Na visão de Eugênio Sávio, idealizador e diretor artístico do evento, o segredo da longevidade está na manutenção de uma ambição nacional aliada ao acolhimento único das ladeiras mineiras. “Continuamos com a mesma ambição que tivemos no início, de ter caráter nacional. Recebemos gente do Brasil inteiro e já notamos um interesse do público estrangeiro, o que é um desafio para os próximos anos”, avalia.

Inclusão e provocação visual
Diferente de anos anteriores, a 15ª edição lançou um olhar atento voltado à acessibilidade, desafiando a própria geografia de uma cidade tombada. Entre os destaques, esteve a homenagem a um fotógrafo local com visão limitada e a participação de uma artista que produz seus trabalhos a partir de uma cadeira de rodas.
“Tiradentes é um lugar difícil para quem não tem mobilidade total. Esse foi um ponto levantado a fim de fazer a cidade refletir”, comenta Eugênio. Além da acessibilidade física, o conteúdo das exposições tocou em feridas abertas e sonhos coletivos. “O conjunto de obras exibidas fez as pessoas pensarem na vida e no mundo. A importância de um festival é essa: trazer questões, levantar reflexões e estimular pensamentos, e não apenas exibir fotos bonitas.”
O diretor artístico salienta também a participação de estudantes da cidade histórica. “Mais de 500 crianças das escolas de Tiradentes visitaram as exposições”, comemora.
O renascimento do papel
Enquanto o mundo se volta ao digital, o Foto em Pauta reafirmou a força do objeto físico ao se tornar o maior hub de fotolivros do país. Foram mais de 60 autores e coletivos apresentando publicações autorais. “Tornamos esse espaço único no Brasil. A questão das publicações autorais talvez seja a vertente que mais evoluiu nestes 15 anos”, destaca Sávio.
Na percepção dos visitantes, o diferencial continua sendo o “fator Tiradentes”: a facilidade do encontro casual em uma área pequena e segura. “É um lugar onde você é bem tratado, onde o convívio é fácil e leve. Isso faz com que o público queira se mobilizar para estar aqui pessoalmente, em vez de apenas ver imagens pelas mídias digitais.”
Próximos passos
Embora a celebração dos 15 anos tenha tido seu ápice entre os dias 11 e 15 de março, a programação continua a pulsar. A exposição Mundo≡Floresta já tem temporada marcada em Belo Horizonte: de 16 de abril a 27 de junho, na CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais (Avenida Afonso Pena, 737 – Centro). E tem com negociações avançadas de itinerâncias em Araxá e outros centros culturais do país.
Com foco em quem ainda está, ou vai visitar Tiradentes, o evento deixa um “até breve” com duas mostras em cartaz. No Museu de Sant’Ana (Rua Direita, 93), pode ser vista até o dia 30 de março, Jeito de Corpo, de Luiza Sigulem, que discute diversidade e acessibilidade ao apresentar retratos feitos em espaços públicos de São Paulo. Nas imagens, os transeuntes são convidados a se “adaptar” à altura do fundo infinito (1,4m), nivelando-se à perspectiva da artista em sua cadeira de rodas. A composição mantém o extracampo, destacando a conexão entre os corpos e a paisagem urbana. E no Centro Cultural Yves Alves (Rua Direita, 168) segue até o domingo de Páscoa, dia 5 de abril, a exposição Mundo≡Floresta, com curadoria de João Castilho e Pedro David e assistência de Gabriela Sá. Inspirada na obra “Floresta é o Nome do Mundo” (1972), de Ursula K. Le Guin, a mostra propõe uma tradução intersemiótica da literatura para a imagem. Com obras de nomes como Claudia Andujar e Cássio Vasconcellos, a seleção de imagens cria uma ressonância sobre a devastação ambiental e a conexão entre corpos vegetais e animais.
Sobre o que esperar de 2027, Eugênio mantém o tom de quem prefere o diálogo contínuo ao planejamento rígido. “O desafio dos próximos anos é continuar mobilizando pessoas capazes de fomentar discussão e reflexão”, conclui.
O 15º Festival de Fotografia de Tiradentes é realizado com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com o patrocínio do Itaú e da CBMM. Veja tudo o que aconteceu no evento no Instagram oficial (@fotoempauta).
Fonte: Rede Comunicação | Fotos: Thaís Andressa